quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A SAGA DO MIGRANTE NORDESTINO


Esta é mais uma crônica de minha autoria publicada por esta Revista. Nas primeiras, escrevi sobre minha terra natal e foi como uma fantástica viagem no tempo, de volta ao passado. Resgatei da memória detalhes de uma experiência em que fatos da vida pessoal e familiar se misturavam e se entrecruzavam com a experiência de vida coletiva numa pequena comunidade com características rurais – a Vila de Belém, distrito do município de São João do Rio do Peixe, no sertão da Paraíba. Revivo, assim, momentos e situações; relembro pessoas que marcaram minha vida no passado e que deram significado ao que ocorreu depois ao longo das últimas quatro décadas.

Sempre me pergunto que interesses esses fatos teriam para os eventuais leitores desta Revista. Claro que não tenho a resposta, mas para mim, pessoalmente,  faz todo sentido, por ser uma forma de me manter ligada às minhas raízes e de preservar, na memória,  o modo de ser que aprendi com meus pais e de cultivar valores e princípios que herdei do meu povo.

Vivi em Belém apenas durante a minha infância e poucos anos da adolescência. A vida de migrante, para mim, começou cedo, seja em razão da seca que nos obrigava a migrar, com toda a família, para outros estados, para não morrermos de fome nem de sede, seja dentro do próprio Estado  em busca de oportunidades para estudar.

Nesse sentido, acompanhei minha tia Lindarrosa, irmã única de minha mãe, por várias cidades da Paraíba, onde ela morou com a família. Em Campina Grande, para onde  levei minha mãe e minhas irmãs, passei a estudar e a  trabalhar  para sustentar minha família. Concluído o curso colegial no Colégio Estadual daquela cidade, tive de suspender meus estudes por não ter condições de ir para a capital para frequentar a Faculdade de Medicina, curso que eu gostaria de ter feito.

Frustrada a expectativa de fazer medicina, só voltei a estudar nove anos depois, quando entrei na Faculdade de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba. Essa opção a que as circunstâncias me levaram  mudou o rumo da minha vida, pois fui  trabalhar com a população pobre do campo e da cidade e, em consequência,  assumi a  militância política ao tomar consciência  de que só a ação política é capaz de transformar a realidade de exclusão e injustiça a  que a maioria do nosso povo está submetida.

As restrições impostas, na época, pelo regime militar aos que trabalhavam com a população pobre me obrigou a sair do meu estado e migrar  para São Paulo onde passei a trabalhar como Assistente Social nas favelas e cortiços na periferia da cidade. Lá se amontoavam meus irmãos nordestinos expulsos pelo latifúndio e permanentemente ameaçados de despejo de seus barracos  pelo governo  e pelos proprietários de terra na cidade.

Compreendi, então, que tanto lá, no nordeste, como aqui,  no sul do país, a luta é a mesma, ou seja, pela democratização do acesso à terra no campo,  aos trabalhadores que precisam trabalhar, como na cidade, aos   que precisam de moradia. Trata-se, portanto, da mesma luta política pela  Reforma Agrária e pela Reforma Urbana, luta essa que, até hoje, continua sem resultado prático, por omissão e descompromisso dos donos  do  poder no país.

Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal emérito de São Paulo, na apresentação do livro “Os nordestinos em São Paulo”, publicação de 1982,  escreveu “...o migrante estabelece o elo interminável da esperança, mostrando que ela subsiste e se torna força de resistência mesmo nas situações mais adversas”.

Assim se explica porque “o nordestino é antes de tudo um forte” e não desiste nunca da luta. É que ele é movido pela força irresistível da esperança.

                                                             Luiza Erundina de Sousa – Dez.2014